Não foi Paris que mudou

Diferenças que senti em Paris 10 anos depois

- O Metro já não é tão caro. Uma carteira de 10 bilhetes fica a 1,27€ por bilhete. Quase o mesmo que em Lisboa.

- A frequência de passagem dos metros é estonteante. Chega a ser de 1 a 2 minutos.

- A entrada para as estações de Metro é mal sinalizada e difícil de encontrar.

- Os condutores portugueses são mais civilizados do que os parisienses.

- Os parisienses, na generalidade, não dão prioridade aos peões na passadeira. Nem quando já estão a atravessar a estrada.

- Mais mendigos na rua a pedir e sem abrigo a dormir nas ruas.

- Em muitas lojas a roupa é ao mesmo preço, ou até mais barata que em Lisboa.

- À parte das tascas onde almoçamos, os restaurantes são ao mesmo preço de Lisboa.

Mas não foi Paris que mudou. Fomos nós.

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Lisboa, claro!

Durante o jantar da conferência no barco no rio Sena, comenta um alemão da minha mesa:

Alemão: “Paris é muito bonito!”

Eu: “A mim irrita-me, simplesmente.”

Alemão: “Porquê”

Eu: “Porque não merece o lugar de líder mundial das cidades com mais turistas.”

Alemão: “Porque não? Não gostas de Paris?”

Eu: “Sim gosto. Mas ponho à frente de Paris muitas outras cidades da Europa.”

Escocês: “Quais, por exemplo?”

Eu: “Por exemplo, falaste à pouco de Barcelona!”

Escocês: “Barcelona?! O que é que tem Barcelona? Barcelona é pequeno e não tem quase nada!”

Eu: “És louco, a arquitectura do Gaudi bate qualquer edifício de Paris. O que dizes do parque Guell?”

Escocês: “Não visitei!”

Eu: “Então não conheceste Barcelona!”

Escocês: “Então e qual é acidade mais bonita do mundo?”

Eu: “Eu não queria dizer isto, mas vocês é que perguntaram, por isso… Lisboa!”

Risos gerais.

Eu: “Agora a sério… eu acho que não existe A cidade mais bonita do mundo. Mas há sim cidades com características naturais únicas, que as tornam umas das mais bonitas do mundo!”

Alemão: “Ok e a torre Eiffel não é única?”

Eu: “Eu disse características NATURAIS!”

Escocês: “E Lisboa tem?”

Eu: “Lisboa é a cidade das 7 colinas. Tem uma baixa maravilhosa rodeada de colinas, com miradouros, castelos, praças e um rio soberbo. Do alto de qualquer colina podes vislumbrar o rio de uma perspectiva diferente e única. E tem um verdadeiro rio e não um mini-rio como o Sena. E não precisámos de construir uma torre Eifell para ter uma única vista maravilhosa.”

Alemão: “Pronto, então imagino que não haja mais nenhuma cidade no mundo como Lisboa. Certo?”

Eu: “Não. Errado. Acredito que nos 6 cantos do mundo existe uma cidade soberba e afortunada pela natureza.”

Escocês: “Não são 6 cantos, mas 5 cantos.”

Eu: “Mas eu digo 6 e já te explico. Na Ásia e na África, não tenho a certeza qual seja a cidade mais privilegiada… talvez em África seja a Cidade do Cabo, não sei. Na Austrália é Sydney, Na América do Norte é Nova York, na América do Sul é o Rio de Janeiro e na Europa é Lisboa. Todas elas únicas.”

 

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Garrafeira dos sócios, 1989

Muitos anos atrás este foi um dos vinhos que me despertou para o prazer de um bom copo. Na altura com as colheitas de 1992 e 1994. Mais tarde as colheitas da década de 2000 foram uma autêntica desilusão. Hoje descobri esta pérola perdida na garrafeira do meu pai – já lá morava há 20 anos. Não tinha grandes esperanças e até já trazia uma suplente no caso de esta não estar em condições. A primeira surpresa surgiu ao retirar a rolha intacta e sem quebras. A segunda quando o seu aroma revelou um vinho intacto e em boa condições. O resto é um vinho de um campeonato da 3ª idade, nada consensual nem de fácil apreciação. A mim surpreendeu-me e deixou relegado desilusões que tive com outros vinhos da mesma divisão como um “Reserva Especial Casa Ferreirinha 1990”. Este acompanhado de um almoço à altura foi uma verdadeira prova superada.

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Prestação de cuidados de quê?

Em Março deste ano numa consulta de urgência às 21:00 no centro de saúde de Sete-Rios fui reencaminhado para o hospital Curry Cabral para fazer uma radiografia ao torax, por suspeita de um princípio de pneumonia. Depois de dar entrada no tal hospital aguardei duas horas, acabando por desistir e deslocar-me para o hospital dos Lusíadas (grupo HPP) por já não ter mais pachorra, disposição, irritação para dar e acima de tudo, receando pelo meu bem-estar e que aquela espera num ambiente degradado sem inspirar qualquer confiança, me pusesse ainda em pior estado.

No HPP e após a apreciação de uma radiografia confirmaram o diagnóstico de uma pneumonia. Regressei a casa eram 3 am.

Agora recebo uma conta de 8,60 euros para pagamento da Taxa Moderadora referente “ao(s) Episódio(s) de prestação de cuidados efectuados no HCC.” (assim descrito).

De facto a única dúvida com que fico é de quantos episódios de novela, sátira ou comédia é que esta história bem contada daria?

P.S. > Acabei de digitalizar a factura, relatório do médico e radiografia que anexei a uma reclamação para o hospital Curry Cabral. Veremos quantos posts mais é que isto vai dar?

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Austrália – balanço final

Pela primeira vez na Austrália estou prestes a aterrar num novo destino sem ter a aquela sensação de frio no estomago. O Hotel está marcadíssimo e o plano para os próximos 4 dias é estar na conferência. Não há dúvidas, nem interrogações. Por isso só tenho que pegar na minha mala e dirigir-me para o Hotel.

Pena não poder ficar aqui mais uns dias para explorar devidamente Melbourne e os seus arredores – a 2ª maior cidade da Austrália. Ainda assim do pouco que deu para ver percebi que é uma cidade com tanta ou até mais movimentação que Sydney. Não se sente um ambiente tão elitista e já se vêm pessoas a pedir na rua, coisa que nunca vi em Sydney. Também não é uma cidade tão privilegiada pelas paisagens naturais, mas consegue compensar isso com um centro bem agitado disposto em grandes desníveis repletos de esplanadas em redor do rio. Sem dúvida, a parte mais interessante da cidade e ornamentada com uma arquitectura moderna a fazer lembrar um pouco o estilo mais actual de Barcelona. De facto esta é parte a que os guias dão maior relevo salientando o simples prazer de se ficar nestas esplanadas a saborear uma bebida.

==== Balanço Final ====

Consegui estar 40 minutos sentado numa esplanada sem fazer nada só à espera que chegasse a hora do meu transfer para o aeroporto. Sem escrever, sem tirar fotos, sem ouvir música, sem telefonar, sem planear, sem agendar e sem me preocupar. Fiquei assim sentado 40 minutos enquanto pensava que bem que me estava a saber estar assim simplesmente quieto sem ter uma próxima acção para tratar e executar. E simultaneamente pensava como é que era possível? Como era possível eu estar ali parado a fazer nada sem aproveitar cada minuto do meu tempo para produzir algo? Eu podia aproveitar aqueles minutos para fazer alguma coisa, como sempre faço: despachar mais um email, escrever mais uma crónica, ler mais um artigo, postar no Facebook, arquivar fotografias, acabar um documento, etc. Mas não, naquele momento eu só queria fazer mesmo nada. E, quanto mais me deixava ficar melhor me sabia e não conseguia entender como é que podia estar contente em viver aquele estado de espírito. Mas na realidade assim permaneci imóvel sem stressar.

Foram 15 dias explosivos, repletos e diversificados em acção. Até os 4 dias finais de conferência acabaram por ser uma correria entre sessões, almoços, jantares, trocas de impressões, preparação da minha apresentação, etc. No fim acabou por não haver um único dia onde eu estivesse realmente parado, sem nenhum objectivo a alcançar. Por isso quando finalmente hoje (4ª Feira ) às 18:00 (7 am em Portugal) acabou a conferencia e sentei-me numa esplanada com o único objectivo de aguardar o transfer para o aeroporto, foi como que uma enorme sensação de leveza invadisse o meu corpo e me deixasse finalmente num estado de relaxe total.

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Austrália – Gold Coast – parte 2

O objectivo para a estadia na Gold Coast era: surfar e relaxar. Ao contrário de Sydney e Cairns, que transbordam em atracções turísticas, a ideia era viver mais o dia a dia e desfrutar da vasta costa de de areias finas e águas verdes cristalinas, apetrechadas de boas ondas. Na verdade e como se imaginava, há muito mais do que praia. Além de uma região de montanha – 40 Kms para o interior – que acompanha toda a costa, também há uma série de parques temáticos ala Miami dos EUA. Aliá, nota-se por aqui uma grande vontade de conotação com o “american way of life”, desde os nomes de algumas praias, e.g. Miami, Palms Beach, aos parques de diversões ala Disney World. Até o sotaque dos nativos se aproxima mais do que ouvimos no calão americano e pouco se esforçam para se fazer entender, quando lhes pedimos para repetir.

Ao fim de três dias de ondas e relax, começou-me a despertar a ideia de me aventurar às atracções da região. Mas parques temáticos soa-me um pouco a desperdício numa viagem à Austrália. Montanha e parques nacionais já tinha tido com fartura em Sydney e Cairns. Além de que não me estava a apetecer fazer viagens de carro de 80 Kms que demoram 2 horas. As regras são interessantes, mas os limites de velocidade um pouco desesperantes. Por fim, a atracção que me pareceu mais razoável seria a viagem de barco para avistar baleias. Sem dúvida que foi  das melhores experiências que trago na memória foi estar lado, a lado com a baleia Jubarte em Abrolhos (Brasil) e Cinzenta em Cape Cod (EUA).

Havia dois horários de visitas às baleias: 9:00 e 14:00. O segundo seria, sem dúvida pior, dado os fortes ventos que começam a soprar a partir das 10 am e que deixam o mar bastante encrespado. O primeiro iria colidir com a melhor altura de ondas, fazendo-me perder o último dia de surf na Gold Coast. Dado o conflito de interesses, voltei ao plano inicial e optei nessa tarde por completar o levantamento da Gold Coast e assim reunir a restante e total informação da região, embora soubesse que aquilo que faltava para ver não era o mais interessante.

Em suma, faltava-me conhecer metade da costa, que fica para norte de Miami beach. A Gold Coast são cerca de 50 Kms em forma de baía. A sul estão as melhores ondas, mais protegidas do vento de sul (equivalente à predominante nortada de Portugal), D-Bragh, Snapper, Collangata, Kirra, Blinga, Currumbin, Palms, Burleighs. O lado norte leva em cheio com  o vento de sul, que sopra em on-shore e piora a qualidade das ondas. Aí situa-se Murmeigh, Broad, Surfers Paradise e The Spit. Por isso esta incursão ao lado norte seria apenas pelas vistas turísticas e não pela qualidade das ondas.

Surfers Paradise, pode ser considerada a capital da Gold Coast e muitas vezes confundida com a Gold Coast em si. Uma incorrecta e injusta analogia, porque aqui dominam única e exclusivamente os arranha-céus ao longo de toda a Esplanade (é assim que chamam à marginal que acompanha a praia principal). Os forasteiros dos outros cantos da Austrália dominam as ruas, vindo para aqui em busca de animação. Um ambiente comparável áquele que os ingleses “pé-descalso” recriam no nosso Algarve. Mas estes forasteiros conseguem ser ainda mais abestalhados que os ingleses, o que para um folano alto como eu, dá-me a sensação de um duende que pode ser esmagado com uma simples pisadela. Todo este ambiente é ainda mais acentuado por se ir disputar às 17:30 o jogo para o 3º lugar da taça do mundo de Rugby, entre a Austrália e Gales, o que faz os aficcionados sairem à rua ecoando cânticos de apoio à sua selecção como que Vikings envergando as suas armaduras para uma dura batalha.

Concluído o reconhecimento de terreno de Surfers Paradise, que nada tem de paraíso, segui até à ponta norte da Gold Coast, fim da South Stradbroak Island onde fica The Spit. Um zona inóspita de praias desertas e alvo dos fortes ventos de sul, tornando o mar num cenário tempestuoso. Ainda assim, em The Spit junto ao longo pontão de pilares em ferro (estilo americano) estavam alguns surfistas a apanhar não sei bem o quê, porque mais se parecia a uma máquina de lavar roupa.

Sábado, último dia na Gold Coast acordo às 5.30 da manhã e saio sem pestanejar em direcção a Palms Beach – a minha praia de eleição para estes dias. O mar está mais pequeno, com sets de metro no máximo, mas ainda mais perfeito e translucido que nos dias anteriores. Um exagero de tanta perfeição. Já sinto os cantos da casa, nado, posiciono-me e desbravo as ondas sem exitações.

De tarde a ondulação continuou a cair e já não tive pachorra para a surfada da parte da tarde, sempre com mar mais “avacalhado” e que só dá para brincar. Por isso fui explorar o parque nacional de Burleigh Heads que fica mesmo em cima da praia e que oferece algumas vistas sobre as falésias e escarpas em seu redor.

Já ao fim da tarde mais um acontecimento inédito deixou-me boqueaberto. Enquandto repousava num banco do jardim virado para Snapper Rocks a ver a malta apanhar uns espumaços, chama-me a atenção uma nuvem de vapor de água que se eleva por de trás dos surfistas. Estava longe e à primeira vista não descerni muito bem se era mesmo uma nuvem ou os respinchos de uma onda. Concentrei o meu olhar naquele ponto do horizonte e à segunda aparição vejo uma barabatana a acenar. Saltei num ápice e aproximei-me da areia questionando uns Aussies se o que estava a ver era realmente uma baleia. Eles riram-se pela minha estupefacção e não deram muita importância ao bicho, que pelos vistos deve ser tão comum naquelas praias com um gato ou cão vadio nas nossas ruas. Desatei a correr ao longo da baía de Rainbow Bay em direcção ao cabo da ponta norte (onde termina a Gold Coast), o mais próximo possível de onde estariam a passar as baleias.

Esse local oferece uma boa panorâmica do mar e é muito procurado para a melhor foto. Tentei apanhar o melhor ângulo, embora a minha reles máquina fotográfica não desse grande margem de manobra. No meio da minha excitação começo a ouvir um gajo a gritar e quando reparei estava dirigir-se a mim reclamando: “GET OUT OF THERE! GET OUT OF THERE!”. Encolhi os obros como que não percebendo o que é que ele queria e o folano aponta para o casal de noivos que estava ao meu lado a tirar umas fotos naquele local. Com o meu entusiasmo nem me tinha apercebido que me tinha colocado no meio do cenário dos noivos. Ops.

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Austrália – Gold Coast, Colangatta, Snapper Rocks, Burleigh Heads, Palms Beach e Miami Beach

Volto à estrada. Desta vez calhou-me um carro maior de 3 volumes – um compacto – com velocidades automáticas. Está-se bem. Assim que começo a explorar a Gold Coast fico estupefacto com a primeira imagem da praia – Blinga. Impressionante. Um imenso areal de areia branca, fina, em dunas suaves, lisas, limpas e sem pegadas, como que se alguma máquina de alisamento ali as tivesse espalmado. No fundo um mar azul translucido com uma ondulação muito certa a despoltar ao longo de todo a praia. Niguém na água, niguém na areia e um enorme manto verde de relva ao longo de toda à praia serve de porta de entrada. São Kms infindáveis. Fabuloso.

Daqui dirijo-me para sul em direcção a Kirra, Collangata, Snapper Rocks, D-Brah. Começam-se a ver alguns surfistas, mas poucos ainda e os jardins cada vez mais verdes e densos dominam as envolventes das praias. Espectacular.

Kirra sem ondas. Collangata com algumas ondas, mas sem ninguém dentro. Snapper Rocks à pinha de gente. Uma enorme onda de direita varre toda a baía de Rainbow bay. Apesar do crowd há imensas ondas e os surfistas vão-se dispersando ao longo da baía. Toda a gente parece estar a apanhar ondas sem problemas. A baía é muito bonita e novamente um relvado de entrada e um areal que transmitem uma sensação de limpeza.

Apesar de me faltar ainda muita costa para desbravar e de as condições não estarem nada de espectaculares, decidi que seria melhor entrar de imediato em Snapper Rocks. Seguindo a minha velha máxima de não hesitar e entrar no primeiro sítio que inspire as mínimas condições a uma boa surfada. O mar estava perfeito, com sets de 1,5 m pouco agressivo e estavam reunidos os ingredientes para a primeira ambientação à Gold Coast.

A água era de uma translucidez indescritivel. Comparável e talvez melhor que a água da barreira de coral. Era realmente fabulosa e os reflexos em tom esverdeados pela luz do sol rematavam todo este cenário. Foi uma sessão razoável, sem grandes ondas, mas que valeu bastante por todo o ambiente.

Concentrando-se aqui as melhores ondas da região de Queensland, o plano seria arranjar um sítio qualquer para dormir e andar a desbravar à desgarrada. Daqui segui para norte – Burleighs Heads – outro lugar clássico onde se realizam muitas provas de surf e que fica junto a um parque nacional. A praia esconde-se por trás de uma reentrancia de um monte verde – parque de Burleighs – dando depois lugar a uma terreola muito pitoresca. Um daqueles sítios com que se simpatiza à primeira vista e que achei que seria um bom local para prenoitar.

Como os hóteis são caros e os móteis abundam (ala Estados Unidos, mas só nesta região) decidi optar por este último. O problema é que com vinte anos ou menos, o nosso espírito é aberto e como menos requisitos ao alojamento. Com trinta a caminho dos quarenta, aquilo que tinha muita piada quando andava à deriva pelos USA agora já não tem qualquer graça.

Depois de ter recusado 3 móteis que nada me agradaram, já farto, acabei por ficar no “Surf N Sand” (em todos pedi sempre para ver o quarto). De todos, este  era o que tinha o aspecto mais limpo, mas tal como os outros dominam as paredes em tons escuros, pouca iluminação, janelas com péssima insonorização, uma porta que nem vale a pena fechar no trinco, porque mais se assemelha a uma folha de cartão e os carros ouvem-se como se tivessem a passar dentro do quarto. Ainda mal estava instalado e já estava a pensar que amanhã teria que perder o amor ao dinheiro e mudar-me de sítio.

Saí para jantar a pensar que quando chegasse podiam-me ter assaltado o quarto, tal era a falta de robustez da porta e janelas. Mas nada aconteceu. No meio deste stress nem me tinha apercebido que o Motel estava muito próximo da praia de Palms Beach, ficando à distância de uma caminhada de 5 minutos. Além disso como o meu quarto ficava no 2º piso, da varanda conseguia ver o mar o que me proporcionou mais um cenário fascinante às 6.30 da manhã quando me levantei e fui espreitar à janela. A luz do dia ainda em lusco fusco e o mar com picos perfeitos de metro e meio glass a rebentar por toda a praia de Palms Beach.

Foi uma das melhores sessões de sempre com algumas ondas a darem bons tubos. Tudo seria perfeito se não fosse o enorme susto que apanhei ao ver passar mesmo à frente do meu nariz uma barbatana de golfinho/tubarão (não sei, mas prefiro acreditar que era mesmo golfinho). Fiquei tão embasbacado, que quase não tinha reacção e nem conseguia já articular o meu inglês. Pus de imediato os braços e pernas para fora de água e tentava perguntar sobressaltado se costumava haver por ali muitos golfinhos. Responderam-me que sim: “Golfinhos, baleias, …”. Sim também já tinha lido sobre as baleias que durante o mês de Outubro passam ali em direcção à Antártida. “E tubarões?”. “É raro, mas também há. Como é que era a barbatana? Passou assim ou fez assim?” Acompanhado de um gesto que explicava as duas formas como a barbatana podia passar, caso fosse um golfinho ou um tubarão. Sei lá, era uma barbatana e não muito pequena. Quando olhei já estava de fora e depois só a vi desaparecer.  “Ok, deve ser um golfinho”. Deve ser? DEVE SER?! Que stress. A partir daí já nem conseguia remar direito e como a rebentação estava forte já não consegui mais ultrapassá-la e chegar ao pico. Acabei por sair de água e foi um enorme alívio quando me senti em terra.

O resto do dia andei a vaguear numa completa onda de relax a explorar as praias em redor de Burleigh Heads, Colangata, etc. Mais tarde chegou a altura de começar a explorar o sítio onde prenoitar para as próximas 3 noites. Depois de 3 tentativas falhadas que ultrapassavam em muito o meu orçamento, acabei por encontrar a bom preço um T1 num bloco de apartamentos mesmo virado para Miami Beach e a 2 Kms da próxima cidade a norte de Burleighs – Broadbeach.

Segundo a gerente do Hotel ali também davam grandes ondas e até melhores que em Palms Beach. Nesta região da Gold Coast todos opinam sobre surf conhecendo claramente todos os picos e prespectivando as melhores condições. Seja homem, ou mulher, novo ou velho. Em qualquer estação de rádio dão atenção à modalidade, anunciando o “forecast” e as ondas com melhor qualidade. Até no telejornal aquele senhor de aspecto mais formal que apresenta o boletim metereológico dedica uma grande fatia de tempo à previsão do estado do mar para o surf. Assim passamos todo o dia a ver, ou ouvir surf, tal como em Portugal passamos a semana toda a antever os jogos de futebol.

Este hotel é bem mais sossegado já não se ouvindo barulho dos carros, mas a passarada selvagem começou num frenesim diabólico a partir das 5 am assim que despoltaram os primeiros raios de sol. Seguiu-se a caminhada matinal até à praia para inspeccionar as ondas, mas o aspecto não era nada convidativo com as ondas a rebentar de forma desordenada.

Arrumei a trocha na mala do carro e segui até Palms Beach. Tal como no dia anterior o mar estava com sets de 1,5 m, vento off-shore, água em tons de verde translucido, picos perfeitos a rebentar ao longo de toda a costa e pouco crowd. Em suma, estavam reunidos todos os acessórios de um “mar à Miguel”. Tal era a beleza daquelas ondas que rapidamente varreram-se-me os pensamentos dos tubarões que desde o dia anterior não mais me largaram. Falta acrescentar que a temperatura da água tem estado espectacular a rondar os 24 ºC.

O ambiente é formidável, de grande tranquilidade e respeito pelas ondas uns dos outros. A quantidade e qualidade é tanta que ninguém acaba por stressar. Entrei ainda não eram 7 am e hoje mais cedo que o habitual, por volta das 9:30, o vento rodou de on-shore e as ondas ficaram piores. Parece que também aqui à semelhança de Portugal a melhor altura de ondas e com menos vento é sempre de manhã. Depois disso começa a soprar o vento de leste mais forte, que piora as condições.

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